O CHEFE ANSIOSO
Artigo publicado no Jornal Valor Econômico em 12/11/2003
Todo mundo já teve, pelo menos um dia na vida, um chefe ansioso. Figura bem conhecida, geralmente marcado por ícones engraçadinhos, que tentam inverter o clima de tensão imposto no ambiente. Que atire a primeira pedra quem nunca se deparou com uma placa de “cuidado, chefe estressado”.
Nos dias de hoje grande parte dos problemas com que temos de lidar diariamente passa por um mesmo fator comum, a ansiedade. Seja ela a causadora ou a conseqüência do distúrbio. Não é à toa que a Era Moderna também é conhecida como a Era da Ansiedade. Nos Estados Unidos, onde as pesquisas são abrangentes, uma a cada oito pessoas entre 18 e 54 anos sofre algum tipo de desordem de ansiedade, passando dos 20 milhões de pacientes diagnosticados em ambulatórios. Esse número consegue ser maior do que o de casos de depressão.
No Brasil ainda não foi realizada qualquer estatística séria a esse respeito, mas acredito que mais de 50% das chefias tenham características ansiosas, o que contamina o ambiente organizacional de tensão e problemas, gerando improdutividade.
A síndrome do chefe ansioso começa quando este assume de forma integral a responsabilidade pelo sucesso do negócio. Sentindo-se possuidor do todo, ele acredita integralmente, e de forma não revelada, que será o único culpado por um eventual problema que gere o insucesso da ação. Apavorado com a perspectiva dessa possível acusação, o ansioso transmite de forma integral e amplificada para a sua equipe todo o sentimento de pressão que o acomete.
Assim, aumentam os cuidados com a situação externa, e ele mesmo - de forma consciente ou inconsciente - se transforma em fator de estresse para o seu grupo, que passa a temer seus gritos, reações e, principalmente, suas punições funcionais, morais e de não reconhecimento.
Nesse ponto, o próprio comandante se torna o verdadeiro perigo e real inimigo da equipe. A convivência com ele passa a ser mal tolerada e sentimentos como magoa, ressentimento e agressividade reprimida vão se acumulando e contaminando o trabalho deste grupo. As atividades já não são mais realizadas por interesse, mas por medo.
O chefe ansioso, por sua vez, não tem a menor noção do que está acontecendo a sua volta. Não percebe seus liderados e muito menos os sentimentos que despertou neles. Acredita estar fazendo o melhor para a empresa e seu único foco é não decepcionar nessa tarefa. Interpreta os acertos da equipe como parte da obrigação, sem se lembrar de tecer elogios pelo bom desempenho. Quando erra, o desespero toma conta de seus pensamentos e atitudes. Sentindo-se exposto e ameaçado, culpa, sem dó, a equipe pela falha.
Num primeiro momento a excitação causada pelo clima de ameaça parece positiva. As pessoas redobram a atenção e ficam mais alertas. Mas a cronicidade deste estado, feito uma guerra contínua, acaba trazendo rapidamente sinais de desgaste, improdutividade e explosão de sentimentos reprimidos. E como a chefia não tem noção do que acontece a sua volta, vai automaticamente aumentando a tensão, o que só piora o desgaste.
Cabe ao chefe, ou à organização, identificar essa síndrome doentia e sanar as mazelas nas células infectadas. Reconhecer os sintomas prejudiciais da ansiedade no grupo e driblar as pressões do dia-a-dia e os sentimentos de insegurança são fatores fundamentais para a garantir um ambiente saudável e, conseqüentemente, a produtividade da equipe. Quem sabe deixar esse artigo, por um acaso, na mesa de um ansioso não seja a primeira dose de uma vacina coletiva. Não custa tentar.